O período era de
excepção e exigia medidas extraordinárias. Num ápice, registaram-se centenas de
pacientes nas unidades sanitárias locais, cujos diagnósticos médicos
confirmavam o que todos temiam. A
noticia foi proclamada aos 7 ventos, o distrito encontrava-se em polvorosa ,
ânimos exaltados por parte dos administradores e nervos a flor da pele do lado
dos administrados, os jornalistas
locais, de forma sensacionalista e pouco ortodoxa, decidiram lançar uma
campanha de investigação, com o intuito de descobrir o foco da epidemia e
consequentemente responsabilizar os rostos por detrás da crise, usurpando deste
modo, as incumbências das autoridades policias locais que detinham o poder legítimo de decretar investigações do
gênero.
16 de Maio de 1993 ,
para Dona Fátima , esta data, era bastante significante, marcava o início da
feira municipal , realizada anualmente no mercado informal , no qual ela
detinha uma pequena barraca , por onde comercializava os seus produtos
artesanais onde o destaque recaia para a sua famosa bebida fermentada
denominada eufemisticamente de “Don-Tuali”.
Dona Fátima , acordou bem disposta nessa manhã chuvosa de Maio, muito
cedo mal acabara de despertar-se por completo,
arregaçou às mangas e deitou mão ao trabalho, para que tudo saísse de
perfeição na feira municipal, pois sabia ela muito bem, que estas datas
especiais traziam lucros avultados , pela imensidão de consumidores que
ocorriam ao local para saborear e refrescarem-se com o aclamado “Don-Tuali” da
Dona Fátima.
4 horas antes do
arranque da feira municipal, o organizador da feira municipal e responsável
pelo mercado informal, tratado carinhosamente por “Ti-Sebas”, fora convocado
pelos administradores locais. A investigação levada a cabo pelos jornalistas,
sobre as origem da epidemia, havia sido concluída e os resultados eram
catastróficos, relativamente a realização da feira municipal. “Ti-Sebas” , Sebastião Malaqueta, subscreveu
o convite e deslocou-se para a sede da administração local , onde era aguardado
impacientemente , por uma comissão , criada ad-hoc , constituída por
jornalistas, policias e autoridades sanitárias. O período era de excepção e exigia-se medidas
extraordinárias, logo, os protocolos e vênias habituais foram dispensados e
passou-se a palavra ao porta-voz da comissão, para ler em alto e bom tom os
resultados da investigação.
Sebastião Malaqueta ,
não queria acreditar no que acabara de ouvir por parte do porta-voz da comissão
e o mesmo consagrava o seguinte “…Excelência Senhor Administrador , Ilustre
Capitão da Polícia , Digníssimo Director do Posto de Saúde e Saudosos
Jornalistas , depois de uma semana de esforços tremendos por parte da nossa
equipa de jornalista, que de forma célere, rigorosa e profissional não mediu
esforços para descobrir as verdadeiras causas da epidemia que tem vindo a
arrasar a nossa comunidade, concluímos; que o fosso do vírus por detrás da
epidemia, têm sido a barraca da Dona Fátima, no mercado informal, através do
seu reputado produto “Don-Tuali” e como forma de preservar e garantir a saúde
pública da nossa comunidade, viemos por meio deste comunicado, decretar o
seguinte: a partir desta data, 16 de Maio de 1993, é expressamente proibida e
venda e distribuição do produto “Don-Tuali” dentro da nossa circunscrição
administrativa, os escriturários dactilógrafos da administração já se encontram
neste momento a redigir o despacho que posteriormente será assinado pelo senhor
administrador, que consagra coimas e multas pesadas para todo o cidadão que
infringir esta disposição normativa…” Fim do comunicado.
“Ti-Sebas” ,
retirou-se da reunião, perplexo e incrédulo, não compreendia o facto de um
produto secular e histórico como o “Don-Tuali”
passar agora ao estado de produto ilegal, o que acabaria com o sucesso
da feira municipal e subsequentemente abalaria a condição económica da Dona
Fátima. “Ti-Sebas” , dirigiu-se a
residência da Dona Fátima , onde de forma aparatosa se preparavam cerca de 250
litros de “Don-Tuali” que seriam comercializados na feira municipal, para
comunicar-lhe o infortúnio. A noticia
foi deveras devastadora para Dona Fátima, num misto de tristeza e desespero,
deu por si banhada em lagrimas e perguntando de forma histérica, o que seria de
sua vida agora, com a publicação daquele despacho administrativo que proibia a
venda do “Don-Tuali” em todo o distrito.
“Ti-Sebas”,
consolou-a e confidenciou-lhe o seu desacordo pleno com o referido despacho,
“Ti-Sebas” , arguia, dizendo que era extremamente injusto, que se ilegalizasse
apenas o “Don-Tuali” quando por sua vez,
às outras bebidas ainda mais corrosivas e nefastas para a Saúde Pública
circulariam sem impedimentos por todo o distrito. Para “Ti-Sebas” , Dona Fátima
era um alvo fácil e vulnerável e fora utilizada como bode expiatório numa
investigação demérita sem qualquer critério de rigor, acreditava ele , que
muitas dessas regras que circulavam pela comunidade não eram expressão da moral
da povo muito menos um fruto da manifestação espiritual e cultural do povo do
distrito, mas antes, um conjunto de cartilhas que expressavam um manancial de
interesses de um grupo bem identificados de administradores, policias e
jornalistas , dai o facto dos seus estabelecimentos onde também são
comercializados bebidas psicotrópicas não serem afectados por este despacho
administrativo.
Inconformado pelo previsível
fracasso da feira municipal, “Ti-Sebas” , sugeriu a Dona Fátima que acatasse
inicialmente o despacho como forma de sossegar a comissão de inquérito e que
logo em seguida, pensaria numa forma de ludibriar as proibições plasmadas no
despacho administrativo. Como se previa,
a feira foi um fracasso sem a presença especial do “Don-Tuali” foram muitas as
vozes que ecoaram no recinto da feira, contra aquela medida administrativa que
alteraria toda a realidade sociológica da região. Volvidos 5 meses, a epidemia
continuava a dizimar a comunidade, apesar do encerramento da barraca da Dona
Fátima, e, apesar dos factos as autoridades administrativas se mostravam
relutantes e obstinadas em revogar o despacho.
Foi neste contexto,
que “Ti-Sebas” , desolado com a condição lamentável da Dona Fátima, que havia
passado do céu para o inferno com a ilegalização dos seu produto, sugeriu a
Dona Fátima que operasse algumas alterações no seu produto, como forma de dar
volta ao despacho. Primeiro, teria de alterar a receita, ao invés dos habituais
7 kilogramas de açucar castanho, passaria agora a optar por 4 kilogramas de
açucar azul, outra alteração teria a ver com a água usada no processo, em vez
das normais 21 jarras de água do rio, optaria agora por usar apenas 2 litros de
água mineral para suavizar o paladar, a última e mais importante alteração
tinha a ver com o nome do produto, para ludibriar as autoridades de
fiscalização, era necessário que o produto passasse de “Don-Tuali” para
“Kissangua De Laranja”.
Dona Fátima, homologou
às ideias do “Ti-Sebas”, e depois de algum tempo de trabalho, tinha o novo
produto acabado “Kissangua De Laranja”, que na verdade, na sua substância e
substrato era o “Don-Tuali” com um novo revestimento para ludibriar aquele
despacho administrativo. Numa fase experimental, Dona Fátima, decidiu que não
daria a cara por esse produto para não chamar a atenção dos fiscais, policias e
jornalistas, decidiu então , delegar o negócio para a sua filha, e segundo
informações dos vizinhos, a bebida foi recebida com muita azáfama no mercado
informal, a procura foi tanta que suplantou a oferta o que obrigou ao dobro da
produção. “Ti-Sebas”, apercebeu-se logo que aquele sucesso seria comprometedor
e que cedo as autoridades se aperceberiam dos verdadeiros produtores da
“Kissangua De Laranja” com isto, sugeriu a Dona Fátima, que optasse por um
circuito mais fechado e limitado em detrimento de um circuito mais aberto de
vendas, neste caso, ela a filha e o “Ti-Sebas” , formariam uma pequena
organização secreta, denominada “EOY” o acrónimo de Efeni Oikunua Yetu, que
comercializaria a “Kissangua De Laranja” através de pequenos revendedores, em
locais específicos e longe dos olhares indiscretos dos jornalistas, fiscais e
policias.
16 De Maio de 2003, 10
anos depois, a “Kissangua De Laranja” continua a gerar lucros para a “EOY”, e
continuam a ser comercializada em circuito fechado, os consumidores passaram
das centenas aos milhares, apenas os
consumidores mais assíduos têm acesso aos pequenos revendedores que a comercializam
em pequenas doses de 300 e 600 milímetros respectivamente. Hoje, o distrito da
“Mahaca” é procurado por dezenas de indivíduos com interesses em provar e até
mesmo sobredimensionar e internacionalizar a “Kissangua De Laranja” da “La
Familia”, que na verdade, não passava do reputado “Don-Tuali” da Dona Fátima,
que foi ACIDENTALMENTE ILEGAZIADO por uma exame superficial de uma comissão que
na busca de repostas políticas rápidas para os seus superiores hierárquicos,
malharam na vítima mais vulnerável do distrito.
Moral
da História: Mais educação e menos Repressão…
Mardilénio
Hifewa [ Soba L ]
Xangongo,
aos 04 de Janeiro de 2012
Brevemente
o Livro – Sorrisos Imperfeitos
- , Já em fase terminal




